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terça-feira, 15 de março de 2011

No Frigir dos Ovos...

PERGUNTA : alguém sabe me explicar, num português claro e direto, sem figuras de linguagem, o que quer dizer a expressão "no frigir dos ovos"?



RESPOSTA : quando comecei, pensava que escrever sobre comida seria sopa no mel, mamão com açúcar. Só que depois de um certo tempo dá crepe, você percebe que comeu gato por lebre e acaba ficando com uma batata quente nas mãos. Como rapadura é doce mas não é mole, nem sempre você tem idéias e pra descascar esse abacaxi só metendo a mão na massa.

E não adianta chorar as pitangas ou, simplesmente, mandar tudo às favas.

Já que é pelo estômago que se conquista o leitor, o negócio é ir comendo o mingau pelas beiradas, cozinhando em banho-maria, porque é de grão em grão que a galinha enche o papo.

Contudo é preciso tomar cuidado para não azedar, passar do ponto, encher linguiça demais. Além disso, deve-se ter consciência de que é necessário comer o pão que o diabo amassou para vender o seu peixe. Afinal não se faz uma boa omelete sem antes quebrar os ovos.

Há quem pense que escrever é como tirar doce da boca de criança e vai com muita sede ao pote. Mas como o apressado come cru, essa gente acaba falando muita abobrinha, são escritores de meia tigela, trocam alhos por bugalhos e confundem Carolina de Sá Leitão com caçarolinha de assar leitão.




Há também aqueles que são arroz de festa, com a faca e o queijo nas mãos, eles se perdem em devaneios (piram na batatinha, viajam na maionese... etc.). Achando que beleza não põe mesa, pisam no tomate, enfiam o pé na jaca, e no fim quem paga o pato é o leitor que sai com cara de quem comeu e não gostou.

O importante é não cuspir no prato em que se come, pois quem lê não é tudo farinha do mesmo saco. Diversificar é a melhor receita para engrossar o caldo e oferecer um texto de se comer com os olhos, literalmente.

Por outro lado se você tiver os olhos maiores que a barriga o negócio desanda e vira um verdadeiro angu de caroço. Aí, não adianta chorar sobre o leite derramado porque ninguém vai colocar uma azeitona na sua empadinha, não. O pepino é só seu, e o máximo que você vai ganhar é uma banana, afinal pimenta nos olhos dos outros é refresco...

A carne é fraca, eu sei. Às vezes dá vontade de largar tudo e ir plantar batatas. Mas quem não arrisca não petisca, e depois quando se junta a fome com a vontade de comer as coisas mudam da água pro vinho.



Se embananar, de vez em quando, é normal, o importante é não desistir mesmo quando o caldo entornar. Puxe a brasa pra sua sardinha, que no frigir dos ovos a conversa chega na cozinha e fica de se comer rezando. Daí, com água na boca, é só saborear, porque o que não mata engorda.



Texto: autor desconhecido


terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Homo...Sex...Sapiens

Um dia desses um amigo me confidenciou que era 'gay' mas não tinha coragem de 'sair do closet'. Eu entendi sua preocupação, pois a sociedade não perdoa, mata! literalmente falando, como vemos frenquentemente nos jornais.




Aí fiquei pensando comigo mesma , "como estamos atrasados!!!!" Primeiramente, essa invólucro que temos chamado de corpo, ou mesmo o nosso ego, não passa de uma ficção, algo temporário, como um raio que risca o céu. Segundamente, o gênero feminino ou masculino é só mais uma roupagem  em cima da outra roupagem , portanto o que importa se eu sou feminina, masculina, gay, isso ou aquilo. É só uma cor dentre outras cores. Por que dá tanta importância prá isso?!!!!!






No fundo, no fundo todo mundo tem os dois polos dentro de si. Uns praticam um polo mais que outro, só isso.
Aí falei prá meu amigo: Ficar no closet é escuro, apertado, conflitivo, claustrofóbico! O melhor é sair prá luz, mesmo que ela cegue à princípio, mesmo que ela queime à princípio, mesmo que ela atordoe à princípio, mas logo logo acostuma-se.





Aí ele respondeu: "e a família?, como falar prá ela?"
Realmente, essa é uma pedra grande no sapato. Mas como diz Rumi, o grande poeta persa: "No momento em que vc aceita o que vc é, as portas se abrem." , e outra dele:  "Não faz absolutamente nenhuma diferença o que as pessoas pensam sobre vc."




Com a família eu diria por osmose, ou seja, devagarzinho... cada dia uma pistinha... até chegar ao veridicto final: Eu sou eu!

Texto: QL
Fotos: Internet

quinta-feira, 11 de março de 2010

Ayrson Heráclito - um mano qualquer

Orgânico, controverso, poético, destemido, mas sobretudo simples, catingueiro e ao mesmo tempo freudiano - esse é meu amigo de longos tempos, de longos papos, das pedrinhas e prá nao dizer que nao falei das flores - Ayrson Heráclito, para o mundo e Freud prá mim.





Freud é um desses seres que impressiona, que encanta, que contagia; tanto pela sensibilidade, inteligência, veia artística e sobretudo, pela doçura beija-flor: aquele passarinho pequeno mas extremamente forte e veloz.




Só agora recente é que reencontrei essa figura e fiquei a par de suas peripécias artística-culturais, daí a vontade de propagar essa luz para os confins do meu mundinho virtual.
                                                           

Artista Visual , pesquisador e curador. Suas obras, que transitam pela instalação, fotografia, audiovisual e performance, lidam com frequência com elementos da cultura afro-brasileira e já foram apresentadas em mostras nacionais e internacionais: Bienais,Salões, Exposições individuais, e festivais de arte eletrônicas, como a 3 Bienal do Mercosul ( Porto Alegre)2001, Design 21 (Nova York) 2001 e o MIP2 - Manifestação Internacional de Performance (Belo Horizonte) 2009. possui obras em acervos no Museum der Weltkulturen Franfurt na Alemanha, no Museu de Arte Moderna da Bahia, no Videobrasil e em diversas coleções particulares.

Imerso no orgânico, Ayrson vem se lambuzando de açucar com afeto, de tabaco e alforria, sempre preocupado com as raízes negras, brancas, verdes, amarelas, sem cor ou de cor qualquer, ou de cor da terra esquecida nos murais hipócritas dos homens. 

Esse é o  Projeto SACCHARUM MAM- BA



Um deus negro sentado sobre uma saca de açúcar com dreadlocks de fumo de rolo, nina em um quase transe, um pequeno barco de papel feito de uma carta de alforria.

Só prá contrariar, ele se veste de carne prá desnudar a própria carne e expor a violência sofrida nos idos da escravidão passada e atual. É a performance “A Transmutação da Carne”, apresentada no Instituto Cultural Brasil Alemanha (2000). Tudo feito em carne, costurada com barbante.





E no Mip 2 - Bori


 a pipoca poca...



 o quiabo escorrega,



a batata é doce,

o feijão maravilha tutancamon 



o milho desboneca


e lá , no meio do reino vegetal encantado, o guerreiro comanda...







respeitosamente, ritualisticamente, ecumenicamente. Uma mistura de força e espírito criativo do artista, do homem, do Ser.
 
 
                                                                                                                                                               Esse é uma pequena mostra desse universo Heráclito- freudiano que é ao mesmo tempo doce, melado, salgado, gostoso, erótico e bonito de se ver.
 
 
Obrigada amigo por aparecer na minha vida mais uma vez.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Carnaval na Bahia - parte II, A missão.

Eu nem estou lá esse ano, mas nada me deixa esquecer a Bahia, o carnaval, os 60 anos do trio elétrico, os 25 anos do axé e por aí vai. E nessa folia toda ,continua tudo como antes no quartel de Abrantes: discriminação, industrialização, contradição, cordão, povão, mas sobretudo celebração, por que não?
Portanto, vamo pular, vamo pular,  vamo pular...

Como diz o jornalista  ZédeJesusBarreto: "Na folia, tudo está explícito, nas fuças, caviar e crack, a servir. Paetês e bunda de fora. Heliporto próximo ao camarote e isopor imundo na cabeça, beijo na boca e bala perdida.
Senhor do Bonfim que nos cubra e nos proteja. Que os nossos orixás cuidem da alegria, não permitam o pior. Até a tarde de quarta-feira, quando tudo vira cinzas."

E que venha a diversidade ! (boa ou ruim...faz parte)


Os 60 anos do trio         



O Trio Elétrico de Dodô e Osmar foi a maior inovação do Carnaval da Bahia. Criado em 1950, o trio elétrico representa a consagração do carnaval de rua. A primeira apresentação foi feita em cima de um Ford 1929, apelidado de “fobica”, com guitarras elétricas e som amplificado por alto-falantes, às cinco da tarde do Domingo de carnaval. O desfile aconteceu no Centro da cidade arrastando uma verdadeira multidão.

25 Anos de Axé
A axé music, gênero musical que nasceu na Bahia, se solidificou no Brasil e conquistou o planeta, completa 25 anos de existência em 2010 e continua gerando polêmica. Resultado de uma rica fusão de ritmos (rock, forró, frevo e a inconfundivel batida afro), move apaixonados e revolta alguns que se dizem ‘amantes da boa música’.






Os mais apaixonados resumem dizendo aos quatro ventos que essa é uma expressão musical única, inconfundivel, que contagia e faz a multidão pular que nem pipoca. Os que odeiam o gênero argumentam: com sua massificação, mais acentuada a partir do boom dos anos 90, a axé music tornou-se um vilão ao suprimir outros tipos de expressão cultural.

Passada a febre inicial, o axé ainda reina, é inegável, mas os mais odiosos tendem a acalmar os ânimos e reconhecer: se a massificação prejudicou outras expressões culturais, a axé music serviu e serve, ao menos, para levar aos quatros cantos do mundo um pouco do que a Bahia é, e disseminar os chamados ritmos afrobaianos (distorcidos ou não, massificados ou não).



De Luiz Caldas a Ivete Sangalo, da Banda Mel a Jau Peri, a axé music passou por diferentes momentos, mas permanece sinônimo de festa e diversão. Então, polêmicas à parte, viva a axé music!



 
 
 
 
 
  Filhos de Gandhy

Com seus trajes brancos, os Filhos de Gandhy embelezam os caminhos por onde passam, formando um tapete branco de fé e tradição. O bloco, que já desfila na avenida há mais de 60 anos, tem uma história que começa em 1948, quando os estivadores eram tidos como privilegiados, devido às condições econômicas da época que lhes favorecia e ao fato de não terem patrões.

Nesse ano, foi fundado o bloco Comendo Coentro, no qual um caminhão seguia pelas ruas com vários instrumentos musicais acompanhado dos estivadores, trajados finamente com o que de mais elegante existia: roupas de linho importado, chapéus Panamá e sapatos Scamatchia.



Já em 1949, com a política de arrocho salarial, numa economia de pós-guerra, o governo federal interviu no sindicato dos estivadores, o que fez decair a renda dos sindicalizados. Com a crise financeira, o "Comendo Coentro" não pôde sair às ruas, então surgiu a ideia de levar um "cordão", ou bloco de carnaval, idealizado por Durval Marques da Silva, o "Vava Madeira", com o apoio dos demais estivadores.

Eles arrecadaram dinheiro e compraram lençóis para serem utilizados na confecção dos trajes, barris de mate e couro, com os quais construíram os tambores utilizados no acompanhamento do cortejo. Surgiu então o bloco Filhos de Gandhy, cujo nome foi sugerido por "Vava Madeira", inspirado na vida do líder pacifista Mohandas Karamchand Gandhy. No entanto, trocou-se a letra "i" por "y", para evitar possíveis represálias pelo uso do nome de uma importante figura do cenário mundial. E foi assim que surgiu o bloco que encanta os foliões em Salvador.

Olodum


Batida inconfundível e contagiante que há 30 anos arrasta uma verdadeira multidão pelos quatro cantos do mundo. A banda Olodum fascina pela musicalidade, beleza e energia. São 19 ao todo: 10 percussionistas, 03 cantores e 06 músicos de harmonia, que fazem o povo balançar com o samba-reggae - criado pelo maestro Neguinho do Samba.

Com todos esses anos de carreira e sucesso, o Olodum já esteve em 35 países do mundo e, por onde passa, levanta a bandeira da luta contra o preconceito e a discriminação racial. As parcerias com grandes astros da música, como Paul Simon, Michael Jackson, Jimmy Cliff e Ziggy Marley, renderam ao grupo admiradores que lotam shows e ensaios. Até hoje, nenhuma outra banda de percussão conseguiu reunir 750 mil pessoas no Central Park, ou ainda dois milhões de pessoas, como foi no carnaval de North Hill Gate, na Inglaterra.

O mais belo do belos - Ilê Aiyê

Quem já foi ao carnaval da Bahia conhece a música Mundo Negro, um dos hits mais tradicionais do Ilê Aiyê, lançado em 1975, na estreia do bloco. Com 35 anos de vida, o Ilê é o mais antigo bloco afro do Brasil.

Na luta para preservar a tradição africana no carnaval de Salvador, o bloco leva cultura e muita beleza para a avenida. Impossível não se emocionar quando ele passa!



"O mais belo dos belos", como é conhecido, tem um ritual diferente. Na ladeira do Curuzu, na Liberdade, seus associados se encontram com baianos e turistas e pedem permissão aos orixás para sair às ruas. Na folia de momo, sai no Pelô e no Campo Grande.





Apaches e Comanches

 Na folia deste ano, estará nas ruas outra vez o bloco de índios Apaches do Tororó – duas décadas depois, sair na avenida continua sendo uma verdadeira prova de resistência. Com o lema “O Apaches de volta. Apaches forte, você forte”, o bloco remete à tristeza do ano passado, por não ter conseguido sair.

Inspirado nas tribos indígenas dos filmes americanos o Apaches sai às ruas para denunciar a exploração histórica sofrida pelos povos negro e indígena.

Desde sua fundação, em 1968, o bloco impulsionou o surgimento de vários outros grupos do gênero, além de ter revelado compositores de sambas que ficaram na memória dos foliões, a exemplo de Nelson Rufino, Jair Lima, Paulinho Camafeu e outros do calão.

Em extinção

Pelo menos até 1983, mais de 20 blocos de índio existiram. Destes, só dois sobreviveram: além do Apaches, o Commanche do Pelô, que ainda mantém a média de cinco mil pessoas por dia de festa. Apesar da ajuda que recebem do estado por meio de editais, os blocos ainda consideram a quantia insuficiente. Vale a pena conferir! E, claro, torcer para que essa verdadeira relíquia não siga o mesmo caminho dos outros blocos de índios já extintos.

Sua Majestade, O Rei

Foi-se o tempo em que para ser o Rei Momo era preciso pesar mais de 130 kg. A majestade da folia baiana em 2010 é uma versão mais, digamos... Elegante. Ao menos assim se apresenta Pepeu Gomes, soteropolitano e integrante do grupo Novos Baianos. Pepeu pesa ‘apenas’ 90 quilos e promete inovar: vai entrar no circuito vestindo uma saia escocesa kilt.




O Rei Momo Pepeu Gomes abre oficialmente a festa, na quarta-feira (11/2), às 19h, no Campo Grande (circuito Osmar), quando recebe das mãos do prefeito de Salvador, João Henrique, as chaves da cidade. Também participarão da entrega simbólica o músico Armandinho e os filhos do saudoso Osmar. Logo depois começam os desfiles de blocos e entidades carnavalescas.

Na contramão do Garcia


Todos os anos, os foliões podem conferir o humor e a irreverência do desfile do Mudança do Garcia, bloco de crítica política e social formado por entidades sindicais, partidos políticos, sindicatos, representações dos movimentos sociais organizados, intelectuais, universitários e também foliões que gostam do grupo.

O Bloco Mudança do Garcia não poupa ninguém. O prefeito, o governador, o papa, George Bush, Barack Obama, Lula, a crise financeira mundial, o aquecimento global e a Federação Internacional de Futebol (Fifa).



Esses e muitos outros temas são alvo do humor ácido do bloco que já tem a tradição de não respeitar seu horário de entrar no circuito oficial do carnaval de Salvador, no Campo Grande. Confira a ousadia do bloco.

O Renascer das Cinzas

Depois de seis dias de muita festa, axé e diversão, o carnaval de Salvador sempre acaba com mais festa. O tradicional Arrastão de Carlinhos Brown acontece desde 1994 e celebra o encerramento do grande carnaval da cidade.




Neste ano, o compositor Carlinhos Brown pede a todos os foliões que se vistam de roupas na cor azul durante o arrastão de cinzas, na quarta-feira (17), como um pedido de boa sorte para a Seleção Brasileira na Copa do Mundo.








Enfim...Axé...Tororó...Borogodó...Olodum...Ilê...Pelô...Dodô e todos os yoyôs e Yayás.
Que venham os gritos e atritos do Carná .



Viva a Vida e todas as suas manifestações!




Texto: Queila Levinstone


sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Carnaval na Bahia

Nem tinha terminado a folia de 2007 e o governo petista recém-empossado prometia um amplo debate sobre os rumos e dimensionamentos do Carnaval de Salvador, tido como a maior festa de rua do planeta. Afinal, são seis dias de fuzarca, com o total fechamento do umbigo da cidade, desde o Centro Histórico até Ondina, na orla atlântica.

- Ufa, enfim entra um governo com coragem e cacife popular para intervir um pouco nessa loucura desenfreada que se tornou o carnaval baiano, tão desigual, tão excludente.

Sonhamos.

O Carnaval 2010 está nas bocas e nada, absolutamente nada há de novo. Nenhum debate, nem uma proposta nova, nada!

A indústria dos grandes trios/blocos/estrelas manda na folia, faz o que é do seu interesse. Os camarotes são cada ano mais numerosos e chiques, para alguns. O povão corre atrás para conseguir liberar uma guia, pagando caro, e trabalhar no sufoco, no apertucho, fugindo da cana, dos ladrões, dos fiscais e dos ‘malucos’ na tentativa de ganhar o pão dormindo na rua. As agremiações populares vivem esmolando ‘apoios’ pra sair na avenida ... Ué, ‘tudo como dantes no quartel de Abrantes’, como diz o outro.





A velha Salvador já está emparedada.



Não existe mais decoração de carnaval nas ruas da cidade. Também não é mais possível se ver as belezuras de sua história, mesmo com os hotéis cheios de turistas: o casario do Pelô, algumas igrejas com suas torres majestosas, praças, monumentos, praias, Farol da Barra, Cristo... nada! Tudo tapumado.



As chamadas estruturas do carnaval já ocuparam os espaços, tapam a visão, pois o importante é proteger o verde com placas de compensados imundos, os mesmos do ano que passou, fincar ferros, plantar palcos, camarotes, postos de saúde e segurança ao longo do percurso, espaço para a mídia, os chiques... e corredores da morte para o povão espremido nas calçadas esburacadas, obstruídas... até os meados de março, abril... quando acontece a desmontagem. Vale a pena isso?

Cria-se uma estrutura portátil urbana horrorosa, agressiva, estúpida, dentro da cidade.

Fecham-se ruas, bairros inteiros. E os moradores que se lenhem, se piquem, caso não suportem o sufoco, o confinamento, a barulheira, a invasão de hordas de bárbaros, ou foliões, depende do ponto de vista.

É justo? Justificável... para que meia dúzia encham as burras de dinheiro?

E não me venham com esse papo de ‘herança maldita’.



Não foi o ‘carlismo’ que inventou o axé, o pagode, a indústria dos grandes blocos, os camarotes, a segregação, os ‘cordeiros’, o fogareiro de queijo coalho, o isopor na cabeça, a catação de latinhas, o abadá de mil reais, o venha cá, os privilégios ...

Bem como também não foi o tal ‘carlismo’ que inventou o Trio Elétrico ( 60 anos de Trio), os caretas, as mortalhas, os blocos Afro, a Mudança do Garcia, a diversidade, a tecnologia do som e das transmissões ao vivo para o mundo...




Tudo isso é parte da evolução, da dialética cultural e histórica do povo, das novas descobertas, da expansão do turismo, das leis do mercado, da ação dos ‘negociantes’, da omissão ou adesão dos poderosos de plantão... As mudanças sociais são mais complexas do que imaginam as mentes dos militantes da política eleitoreira.

‘A Bahia vai bem’? ‘E a Bahia de Todos nós’? Quem está no andor?









O modelito do carnaval baiano explodiu, saturou-se. Fazemos o carnaval hoje como se fossem os anos 70, 80.
Só que os trios de hoje são monstros que não cabem mais nos corredores da avenida Sete. Imensos, não conseguem mais subir a Praça Castro Alves, não tem como fazer as manobras em esquinas do século XVIII e XIX.







O casario antigo, bem como estruturas como as do Farol da Barra e alguns prédios, lá e cá, já não suportam os cento e tantos decibéis de barulho; tremem, racham. Nossos surrados ouvidos e caixa de ressonância cerebral também.







O carnaval de Salvador dos anos dois mil são vários carnavais.

O circuito mais antigo, do Pelô, continua familiar. Apesar dos tambores que parecem querer derrubar os casarões coloniais, os palanques ocultando suas belas fachadas.



Um absurdo.

É necessário controle, fiscalização, ordenamento, proibições para que o espaço continue das crianças, dos mais velhos, dos que gostam de máscaras, fantasias, bom papo, encontros, menos agonia, mais contemplação. O Centro Histórico exige isso.





O circuito Campo Grande-Praça Castro Alves-Carlos Gomes devia ser apenas para os foliões-pipoca, os blocos afro, os afoxés, as batucadas de rua, a Mudança do Garcia, a brincadeira, a molecagem sadia, os caretas, as fantasias, as bandas alternativas, o samba-de-roda, as manifestações folclóricas, os grupos do Interior, a capoeira, os protestos, a liberdade de brincar, de criar, sem horários, sem tempo, o tempo todo, o espaço livre do povo...




Carros de som, só os pequenos, mini-trios, fobicas, corsos, batuqueiros...

A avenida do povão. Que tal?


O circuito Barra-Ondina, espaço ganho na tora pelos grandes trios, é o circuito dos grandes blocos e entidades, dos camarotes... dos mais abastados que chegam até de helicóptero e bebem champã, comem caviar, pagam por boates privadas com som tecno-pop, se esbaldam e se exibem distante do bodum da massa...

É outro mundo!

Lá embaixo o povão se esmigalha para ver o artista global. E, nos super-trios, as estrelas cantam e dançam para as câmaras de tevê e para os sites e blogs dos sete cantos do planeta, vendendo o peixe caro, um luxo só. Beautiful!



É isso que querem, tudo bem.



Mas, pergunto: Logo nos bairros que são morada de milhares de famílias, muitas delas avessas à folia, incomodadas, sitiadas, expulsas de suas casas e apartamentos? Por quê?

Já passou da hora de se criar um espaço próprio para o desfile dos grandes trios e blocos e os correspondentes camarotes dos endinheirados.

Uma carnavalódromo, já! Não falta espaço, né, João?

Vamos conversar? Mas cadê a coragem, diante das urnas, de olho nos votos?

Cobro, insisto na discussão do tema. O interesse público (da maioria) acima dos olhos gananciosos de sempre.

Não se trata de travar a evolução das coisas, mas de apontar saídas, antes que tudo exploda, acabe, por falta de espaço, imaginação, por saturação, mesmice, atraso.

Recife, Olinda, o próprio Rio de Janeiro estão buscando alternativas, renovando, reabrindo espaços para as manifestações populares espontâneas e livres.


“... reponha a grama do Farol! Não é justo que, em nome da festa, palanques, camarotes, edificações da qualquer natureza danifiquem os espaços públicos!”





E , mais adiante: “...É imperioso incentivar as bandas e orquestras com seus sonoros metais em Salvador, no justo momento em que renascem vigorosas no Carnaval carioca e continuam brilhando em Recife”.

Nunca é demais lembrar que foi uma banda dos Vassourinhas de Pernambuco, nas ruas de Salvador antes do carnaval de 1950, que motivou os fantásticos músicos e criadores Dodô e Osmar a inventar o Trio Elétrico.

Termino ainda com uma sugesta da melhor, do grande Waltinho Queiroz, para ser adotada já, quem sabe neste carnaval 2010 que se aproxima. O povo acata e realiza:

“...Pleiteio há quatro anos um poético espaço alternativo (para o carnaval). Um oásis acústico no Rio Vermelho, bairro de notória vocação boêmia, para manter acesa a chama dos eternos carnavais, e o Para o Ano Sai Milhó viria conosco! Espaço inovador e de alto astral, onde foliões de todas as idades possam
 brincar em paz! ...”




Enfim, o Rio vermelho seria um ponto de encontro, de relax, de reposição de energias, de escape, de namoro. Sem trios, sem som às alturas, num outro ritmo, um lugar para se dar as mãos, olhar o mar, comer um acarajé... Dar um tempo pro bem querer.


 
 
Texto: Zé de Jesus Barreto
Fonte: http://www.nublog.com.br/index.php

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Tente, Invente, Faça a Vida Diferente


O cérebro humano mede o tempo por meio da observação dos movimentos.   




Se alguém colocar você dentro de uma sala branca vazia, sem nenhuma

mobília, sem portas ou janelas, sem relógio... você começará a perder a

noção do tempo.



Por alguns dias, sua mente detectará a passagem do tempo sentindo as

reações internas do seu corpo, incluindo os batimentos cardíacos, ciclos

de sono, fome, sede e pressão sanguínea.



Isso acontece porque nossa noção de passagem do tempo deriva do

movimento

dos objetos, pessoas, sinais naturais e da repetição de eventos

cíclicos,

como o nascer e o pôr do sol.



Compreendido este ponto, há outra coisa que você tem que considerar:



Nosso cérebro é extremamente otimizado.



Ele evita fazer duas vezes o mesmo trabalho.



Um adulto médio tem entre 40 e 60 mil pensamentos por dia.






Qualquer um de nós ficaria louco se o cérebro tivesse que processar

conscientemente tal quantidade.



Por isso, a maior parte destes pensamentos é automatizada e não aparece

no

índice de eventos do dia e portanto, quando você vive uma experiência

pela

primeira vez, ele dedica muitos recursos para compreender o que está

acontecendo.





É quando você se sente mais vivo.



Conforme a mesma experiência vai se repetindo, ele vai simplesmente

colocando suas reações no modo automático e 'apagando' as experiências

duplicadas.

Se você entendeu estes dois pontos, já vai compreender porque parece

que o

tempo acelera, quando ficamos mais velhos e porque os Natais chegam cada

vez mais rapidamente..



Quando começamos a dirigir automóveis, tudo parece muito complicado,

nossa

atenção parece ser requisitada ao máximo.




Então, um dia dirigimos trocando de marcha, olhando os semáforos, lendo  

os

sinais ou até falando ao celular ao mesmo tempo.



Como acontece?

Simples: o cérebro já sabe o que está escrito nas placas (você não lê

com

os olhos, mas com a imagem anterior, na mente); O cérebro já sabe qual

marcha trocar (ele simplesmente pega suas experiências passadas e usa ,

no

lugar de repetir realmente a experiência).



Ou seja, você não vivenciou aquela experiência, pelo menos para a mente.

Aqueles críticos segundos de troca de marcha, leitura de placa são

apagados de sua noção de passagem do tempo.



Quando você começa a repetir algo exatamente igual, a mente apaga a

experiência repetida.




Conforme envelhecemos as coisas começam a se repetir - as mesmas ruas,

pessoas, problemas, desafios, programas de televisão, reclamações, -...

enfim... as experiências novas (aquelas que fazem a mente parar e pensar

de verdade, fazendo com que seu dia pareça ter sido longo e cheio de

novidades), vão diminuindo.



Até que tanta coisa se repete que fica difícil dizer o que tivemos de

novidade na semana, no ano ou, para algumas pessoas, na década.



Em outras palavras, o que faz o tempo parecer que acelera é a...



ROTINA





A rotina é essencial para a vida e otimiza muita coisa, mas a maioria

das

pessoas ama tanto a rotina que, ao longo da vida, seu diário acaba sendo

um livro de um só capítulo, repetido todos os anos.



Felizmente há um antídoto para a aceleração do tempo: M & M (Mude e

Marque).




Mude, fazendo algo diferente e marque, fazendo um ritual, uma festa ou

registros com fotos.



Mude de paisagem, tire férias com a família (sugiro que você tire férias

sempre e, preferencialmente, para um lugar quente, um ano, e frio no

seguinte) e marque com fotos, cartões postais e cartas.



Tenha filhos (eles destroem a rotina) e sempre faça festas de

aniversário

para eles, e para você (marcando o evento e diferenciando o dia).



Use e abuse dos rituais para tornar momentos especiais diferentes de

momentos usuais.




Faça festas de noivado, casamento, 15 anos, bodas disso ou daquilo,

bota-foras, participe do aniversário de formatura de sua turma, visite

parentes distantes, entre na universidade com 60 anos, troque a cor do

cabelo, deixe a barba, tire a barba, compre enfeites diferentes no

Natal,

vá a shows, cozinhe uma receita nova, tirada de um livro novo.



Escolha roupas diferentes, não pinte a casa da mesma cor, faça

diferente.



Beije diferente sua paixão e viva com ela momentos diferentes.



Vá a mercados diferentes, leia livros diferentes, busque experiências

diferentes.



Seja diferente.



Se você tiver dinheiro, especialmente se já estiver aposentado, vá com

seu


marido, esposa ou amigos para outras cidades ou países, veja outras

culturas, visite museus estranhos, deguste pratos esquisitos..... em

outras palavras...... V-I-V-A.. !!!



Porque se você viver intensamente as diferenças, o tempo vai parecer

mais

longo.



E se tiver a sorte de estar casado(a) com alguém disposto(a) a viver e

buscar coisas diferentes, seu livro será muito mais longo, muito mais

interessante e muito mais v-i-v-o... do que a maioria dos livros da vida

que existem por aí.



Cerque-se de amigos.



Amigos com gostos diferentes, vindos de lugares diferentes, com

religiões

diferentes e que gostam de comidas diferentes.



Enfim, acho que você já entendeu o recado, não é?



Boa sorte em suas experiências para expandir seu tempo, com qualidade,

emoção, rituais e vida. th


E S CR EVA em                                       

tAmaNhos diFeRenTes e em CorES

di f E rEn tEs !

CRIE, RECORTE, PINTE, RASGUE, MOLHE, DOBRE, PICOTE, INVENTE,

REINVENTE....







V I V A !!!!!!!!
 
 
 
 
Texto:   Por Airton Luiz Mendonça


(Artigo do jornal O Estado de São Paulo)

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