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quinta-feira, 30 de junho de 2011

Quem é Deus?




Alguém me perguntou quem era Deus.

No rápido pensar disse:



- Deus é a poesia nas coisas.









Já viu o verde no verde?














                           Já viu o beija-flor no beijo?
















Já viu a água na água e seus peixes?












                                Já escutou a canção do vento?

                                       Antes escuta o silêncio.











Verás as notas estampadas nas nuvens.

Verás, creia!







Deus é a poesia na poesia.



É esse pulsar que anuncia que estamos vivos.

Creia

Creia amigo

Sinta a terra abaixo dos pés





JeanClaudio

28/06/11

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Divino Maravilhoso!


Atenção ao ver a mariposa buscando a luz na porta do seu quarto.
Atenção menina, que alegria!

Você viu?,

Atenção, precisa ter olhos firmes

Pra este sol, para esta escuridão






Atenção

Tudo é perigoso

Tudo é divino maravilhoso

Atenção para o momento

É preciso estar atento e forte

Não temos tempo de temer a morte






 


 Atenção para a porta no alto


Atenção ao olhar o céu, as nuvens

Atenção para a luz, a cor, a insustentável leveza do Ser








É apenas uma das faces da Unicidade.
Nas outras... ela sou eu, é tu , é a terra e o mar...
É divino Marvilhoso!!!!!


Fotos: Nascer do Sol na porta do meu quarto
Texto: Caetano me emprestou sua genialidade

domingo, 17 de outubro de 2010

Entre...Linhas

Crochê... linhas... pontos...
Vem e vai, segura e solta
Se alinha e se aninha
A trama cresce, a mente voa...





A forma se forma, e a mente se espreita
As cores se coram, e a mente viaja
A paciência tece vagarosamente
Vence caminhos quase que infinitos
Mas a mente pula, corre, saltita inquieta

Eis que de repente, sem muito esperar
A peça aparece





Cria vida, ocupa um canto
Linda, única, pessoal.



E a mente...
Bem,
essa criou, imaginou, retou, desmanchou,
entediou,
mas a única coisa que não conseguiu,
mesmo com toda essa meditação-terapeutica-crochetiana,
foi se calar.

Mas um dia o crochê consegue essa façanha!


domingo, 8 de agosto de 2010

No Vazio Luminoso do meu Irmão

                A flor caiu


                Estatelada lá na

                Cacimba, barrenta.



A araponga custipiu no priquito.

Pôxa, Nancy!

Foi um truvejo de dá dó.

A passarinhada rebimbou

No horizonte. Nunca vi   Coisa igual.





A lagartixa espichou,

                                                                 Olhando de soslaio

                                                              O apocalipse desnudar

                                                              Na planície.

                                                               Eis que... o calango

Correndo entre umas

Folhas secas, trupicou

Na margarida que foi                

Estatelar lá

No fundão da cacimba

Barrenta.



O amor de índio

É uma brincadeira constante



                          
 
Poesia: Gélbio Melo
Arte: Queila Levinstone

sábado, 27 de fevereiro de 2010

A Poesia Saiu

A poesia saiu
Foi à rua colher vidas                                              
Foi
Foi colher canções
Afiadas, rimadas em ódio e amor
Foi
Foi além do poeta que cisca no quintal
Foi beber as pessoas do copo
Foi lá
Foi lá ver os cães abandonados
Foi sentir as guerras das torcidas
Foi foi
No gol rasgando a rede
Foi na mata já quase morta colher uma asa
Foi no rio perguntar se lá mora peixe
Foi saber da amada se ela ama
Foi também perguntar ao pastor se a ovelha negra é branca
Ou branca é negra – preta batina, preto paletó
Foi
Saiu assim pela fresta da porta
E só soube pelo latido do cão,
Que a conhece morando ali,
Bem perto da pisada de formiga
No chão de mim, de outros e tantos
Foi...



Retornou certo dia                                              
E lhe perguntei:
- Que trouxe de sua vinda?


Simplesmente respondeu:


- Trouxe palavras para encher
Algum vazio que ora chegue a tua folha
Onde os homens pisoteiam
Trazendo amor e ódio.
Trouxe a marca de quem sente
Trouxe uma nuvem que guarda água
Trouxe um olho que chove
Trouxe uma faca para sangrar,
Pois às vezes, a palavra não corta,
Como deveria cortar.
Trouxe na verdade,
Um poeta por obrigação de gente.


Seja poeta então,
Amigo Jean.



JeanClaudio
24/02/10

domingo, 20 de dezembro de 2009

Há Metafísica Bastante em Não Pensar em Nada


                                  Há metafísica bastante em não pensar em nada.



O que penso eu do mundo?

Sei lá o que penso do mundo!

Se eu adoecesse pensaria nisso.



Que idéia tenho eu das cousas?                                         

Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?


                              Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma

                                                               E sobre a criação do Mundo?              



Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos

E não pensar. É correr as cortinas

Da minha janela (mas ela não tem cortinas).



O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!

O único mistério é haver quem pense no mistério.

Quem está ao sol e fecha os olhos,

Começa a não saber o que é o sol

E a pensar muitas cousas cheias de calor.

Mas abre os olhos e vê o sol,

                                                              


E já não pode pensar em nada,

Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos

De todos os filósofos e de todos os poetas.

A luz do sol não sabe o que faz

E por isso não erra e é comum e boa.



Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?

A de serem verdes e copadas e de terem ramos

E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar, 

           


A nós, que não sabemos dar por elas.

Mas que melhor metafísica que a delas,

Que é a de não saber para que vivem

Nem saber que o não sabem?



"Constituição íntima das cousas"...

"Sentido íntimo do Universo"...

Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.

É incrível que se possa pensar em cousas dessas.

É como pensar em razões e fins

Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores

Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.



Pensar no sentido íntimo das cousas

É acrescentado, como pensar na saúde

Ou levar um copo à água das fontes.



O único sentido íntimo das cousas

É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.

Se ele quisesse que eu acreditasse nele,   


                               


Sem dúvida que viria falar comigo

E entraria pela minha porta dentro

Dizendo-me, Aqui estou!



(Isto é talvez ridículo aos ouvidos

De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,

Não compreende quem fala delas

Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)



Mas se Deus é as flores e as árvores

E os montes e sol e o luar,

Então acredito nele,

Então acredito nele a toda a hora,

E a minha vida é toda uma oração e uma missa,

E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.



Mas se Deus é as árvores e as flores
  
E os montes e o luar e o sol,

Para que lhe chamo eu Deus?

Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;

Porque, se ele se fez, para eu o ver,

Sol e luar e flores e árvores e montes,

Se ele me aparece como sendo árvores e montes

E luar e sol e flores,                                                        


É que ele quer que eu o conheça

Como árvores e montes e flores e luar e sol.



E por isso eu obedeço-lhe,

(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).

Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,

Como quem abre os olhos e vê,

E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,

E amo-o sem pensar nele,

E penso-o vendo e ouvindo,

E ando com ele a toda a hora.




Fernando Pessoa

domingo, 6 de dezembro de 2009

Dorival Caymmi, O Pintor

"É doce morrer no mar,                    

Nas ondas verdes do mar..."

Prá mim, essa é uma das músicas mais bonitas da MPB. É pura simplicidade, é pura poesia, é a doçura personificada. Falar sobre esse cantor e compositor bahiano é muita pretensão, pois acredito que tudo já foi dito, ou melhor, não precisa mais palavras, pois elas são apenas o simbolismo escrito do fato, do homem, e só mesmo a experiência direta prá entender esse artista inigualável.








Entretanto o pintor Caymmi é quase que desconhecido, pelo menos prá mim e acredito, para  a maioria dos meus amigos. Não sei como, essa curiosidade martelou minha cachola e aí resolvi escrafunchar (como dizia minha saudosa mãe).




Como na música, suas pinturas são influenciadas  pelo azul do mar, pelo requebrado das baianas, pela jinga da capoeira e mais do que tudo, pela negritude da Bahia.






"O pintar lhe faz bem..." , como diria seu compadre e amigo de todas as horas, Jorge Amado, tranquilizando Stella, mulher de Caymmi, que ficou apreensiva com a extrema dedicação do seu marido à pintura, receando que ele abandonasse a música, ou a colocasse em segundo plano, e as dificuldades financeiras que poderiam advir dessa atitude.  




O amor pela pintura se tornou uma constante na vida de Caymmi - o convívio com artistas como Volpi, Rebolo, Pancetti e Graciano, no Clube dos Artistas e Amantes das Artes (conhecido como "Clubinho"), em São Paulo, estimulou ainda mais sua crescente atividade de pintor.




Seu estilo, nas próprias palavras do artista seria... "Eu acompanhei toda essa querela entre o Abstracionismo e o Figurativismo, mas não cheguei a uma posição definitiva. Sou um lírico em pintura. Gosto da harmonia das cores. Por outro lado, não posso me desprender da forma."









Além das paisagens, ele pintou vários retratos de amigos, familiares e autorretratos, principalmente nos idos de 40 e 50.










Esse artista, esse compositor, esse cantor, esse pintor, esse ser humano, esse Ser, ficou escrito, cantado e falado pelos quatro cantos do mundo, inclusive aqui no meu cantinho da prosopopéia e da verborréia -  parafraseando o grande Gil - mas sobretudo, guardadinho no meu coração até o dia que eu acordar desse sonho e dormir em outro.










É doce morrer...


Nas ondas verdes do mar meu bem

Ele se foi afogar

Fez sua cama de noivo

No colo de Iemanjá

É doce morrer...
 
 
 
 
 

 
 
 
 
Texto: Queila  
Fonte: Dorival Caymmi: o mar e o tempo por Stella Caymmi               
Fotos das pinturas:  http://www.jobim.org/

sábado, 21 de novembro de 2009

Eu Sou Tu , Rumi

Rumi Oh Rumi
Tu és tão Belo
Tu és tão puro
É o sol da poesia no céu do meu Ser
É luz..
Verdade...
Infinito...
Deus..
Eu sou Tu
Tu...Eu...Um.

(Queila)




Eu Sou Tu


Eu sou as partículas de poeira na luz do Sol
Eu sou o sol redondo
Para as partículas de poeira
Eu digo "fica"
Para o sol
"Segue tua marcha"
Eu sou a neblina da manhã
E a respiração da noite
Eu sou o vento na copa das árvores
E as ondas nos rochedos
Mastro...Timão
Timoneiro e quilha
Eu sou a fundação dos recifes de corais
Eu sou uma árvore
Com um papagaio pousado no seu ramo
Silêncio
Pensamento
E voz
O som musical
Vindo de uma flauta
Uma lasca de pedra
Um tilintar no metal
Ambas as velas
E a mariposa louca em torno delas
Rosa
e o passarinho
Perdidos na fragância
Eu sou todos os Seres
A galáxia girante
A inteligência evolucionária
A ascenção
e a queda
O que é
e o que não é
Tu que conheces Jalalludin
Tu que és um em todos
Digas quem sou eu
Diga Eu sou Tu

(Jalalludin Rumi)
(Tradução: Queila )


Mundos Infinitos
(Rumi)


Consciência Negra

Zumbi
Pelo ventre negro de Palmares
Respirou o seu primeiro ar,
Livre e leve em guerras.
Caminhou o seu primeiro passo,
Solto e tranquilo em batalhas.
Falou a sua primeira palavra
E navegou sobre ela
Até a hora da sua morte:
Liberdade


Jean Claudio



domingo, 14 de setembro de 2008

Que Pai é esse...Tão Belo? (Parte II)

Eu sou mesmo uma felizarda, sou rodeada de irmãos poetas, sobrinhos pintores, primos cantores- compositores e por aí vai. É uma família de artistas, ou pelo menos de pessoas sensíveis às mazelas humanas, doando uma parte de si em busca dos mistérios da alma.


Continuando as homenagens ao nosso pai, meu irmão Zirnaldo explode suas emoções de saudade nessa segunda parte, agora mais voltada a prosa, e mais uma vez, cheia da amor e devoção a um pai que se foi.

MEMÓRIAS DO SAUDOSO BIDA

Por Zirnaldo Rocha

ELE tinha muitos apelidos carinhosos:
Bidão, Bida, Bid, Dedé, Vovô Bida, Vovô da Bahia, Bio, Capitão, mestre...


O seu nome de registro foi inspirado num personagem grego por nome Alcebíades (o que parece explicar o seu senso de filosofia – vinda da fonte – e da sua sabedoria de berço, cujas colocações de vida nos surpreendiam e nos faziam perguntar: ‘como aprendeu esses princípios e colocações tão acertadas sobre a vida e condutas humanas, sem ter o primário completo e sem nenhum contato com a leitura de livros de autores famosos?)

O Alcebíades grego foi um guerreiro lutador – o Alcebíades, meu pai, também...
O Alcebíades grego vem da palavra “Alkibiades” que significa; violento e generoso.

Violento, todos sabemos que meu pai não foi – ele foi, isto sim, bravo quando contemplava o seu direito, ou o direito do semelhante desrespeitado, tolhido... Aí, ele virava uma fera – quase violento mesmo!

(Mesmo sem ter lido a Bíblia, ele aplicava na prática o princípio divino que diz: “Irai-vos e não pequeis; Não se ponha o sol sobre a vossa ira” – Efésios 4:26).

Generoso como o Alcebíades grego, ele foi – e como foi! Que o digam as pessoas ajudadas por ele: parentes, vizinhos, pessoas em geral que o conheceram e foram beneficiadas por ele; estudantes carentes, famílias pobres, viajantes sem o dinheiro da passagem, famintos sem o pão, sem a roupa e o teto, os doentes sem remédios...

Quando passamos com ele um mês em Salvador, cuidando dele em substituição dos cuidados do meu irmão Gélbio, que se encontrava em tratamento de saúde, todas as noites eu o chamava ao alpendre da casa e lhe dizia: “Pai, sente-se aqui, vamos “bater papo” sobre a vida, o passado, a família”.

Ele sempre respondia com um termo pitoresco e muito próprio do vocabulário dele – nós ríamos felizes ao ouvir sempre a sua resposta invariável, um sonoro “QUÁ...!”

Embora sua resposta fosse sempre esta, ele complementava: “vou ali buscar a minha bicicleta”
– ou seja, a sua confortável poltrona com rodinhas (presente do Gélbio) – aí, então, ele se assentava e começávamos o nosso colóquio vespertino.


Uma noite, relembrando o seu lado generoso com as pessoas, eu lhe disse: ‘Pai, o senhor sempre foi um homem generoso, brilhante na bondade com as pessoas, eu me lembro bem disto pai, como os vizinhos, parentes e pessoas simples falavam isto, exaltavam este lado bom do senhor, do seu coração benévolo e sensível...’

Sua colocação, em resposta à minha fala, me encanta até hoje, me enobrece pela expressão da sabedoria do meu pai, do seu equilíbrio emocional, da sua coerência, embora fosse um homem com noventa e quatro anos de idade e tivesse perdido quase completamente a memória, a ponto de não reconhecer até as pessoas mais íntimas da própria família.

Ele respondeu com sabedoria: “É, meu filho, uns dão muito, e outros recebem tão pouco... Infelizmente assim é a vida...!”

Quando falava com ele do trabalho que demos como filhos, ele respondia com muita sinceridade e resignação: “É verdade, vocês me deram muito trabalho, mas tudo já passou, não é?”

Ah! Nosso querido pai, você nos deixou sem a vida ao seu lado – contudo, temos o consolo da sua lembrança generosa, da sua alegria e gratidão contagiantes, do seu maravilhoso senso de humor, das suas “tiradas” fantásticas e, o mais importante, a lembrança do seu caráter honesto, terno e dócil como uma criança...

Bem disse Coelho Neto:

“O corpo que morre
é como o frasco de fina essência que se quebra,
deixando a casa por muito tempo impregnada de aroma,
até que tudo vai se desvanecendo,
ficando apenas a saudade,
que é a memória do coração.”

Nosso pai Bidão foi esse frasco – do tamanho de um jarro de flores – de fina essência, cujo perfume de vida nunca deixará de impregnar a nossa existência, a nossa lembrança e o sentido do nosso coração.

sábado, 30 de agosto de 2008

Jalaluddin Rumi

Em todas as minhas leituras místicas e espiritualistas, um nome é citado por todos, desde Osho , Deepak Chopra até Eckhart, falam da sabedoria desse poeta persa, cuja beleza e verdade dos versos me deixa extasiada, daí minha homenagem e a tentativa de aprender um pouco mais sobre esse homem maravilhoso.
Rumi nasceu em 30 de Setembro de 1207 onde hoje é o Afeganistão e morreu na Turquia, em 17 de dezembro de 1273. É considerado o criador do Sufismo, a vertente mais mística do islamismo. Acreditava que o exercício do amor era essencial para o amadurecimento e aperfeiçoamento dos seres humanos. Pregava a tolerância, a bondade, a paciência, a calma e a compaixão incondicionais. Depois da sua morte, seus seguidores fundaram a Ordem Mevlevi, que a gente reconhece como aqueles derviches que dançam, girando... Essa dança, chamada “sema”, é uma forma de oração coletiva. A UNESCO declarou 2007 o Ano Internacional de Rumi e para celebrar os 800 anos do nascimento do poeta, o governo da Turquia convidou 300 derviches e vários cantos do mundo para dançar na maior “sema” jamais vista.



Conhecido por muitos como o misticismo do Islã, o sufismo é uma filosofia de autoconhecimento e contato com o divino através de práticas meditativas, retiros espirituais, danças, poesia e música. Os sufis acreditam que Deus é amoroso e o contato com ele pode ser alcançado pelos homens através de uma união mística, independente da religião praticada. Por este conceito de Deus, foram, muitas vezes, acusados de blasfêmia e perseguidos pelos próprios muçulmanos exotéricos, pois contrariavam a idéia convencional de Deus.

Alguns poemas de Rumi:


Vem. Conversemos através da alma.

Revelemos o que é secreto aos olhos e ouvidos.

Sem exibir os dentes, sorri comigo, como um botão de rosa.

Entendamo-nos pelos pensamentos, sem língua, sem lábios.

Sem abrir a boca, contemo-nos todos os segredos do mundo, como faria o intelecto divino.

Fujamos dos incrédulos que só são capazes de entender se escutam palavras e vêem rostos.

Ninguém fala para si mesmo em voz alta.

Já que todos somos um, falemos desse outro modo.

Como podes dizer à tua mão: "toca", se todas as mãos são uma?

Vem, conversemos assim.Os pés e as mãos conhecem o desejo da alma.

Fechemos pois a boca e conversemos através da alma.

Só a alma conhece o destino de tudo, passo a passo.

Vem, se te interessas, posso mostrar-te.


A evolução da forma

Toda forma que vêstem seu arquétipo no mundo sem-lugar.

Se a forma esvanece, não importa,permanece o original.
As belas figuras que viste,as sábias palavras que escutaste,

não te entristeças se pereceram.
Enquanto a fonte é abundante,o rio dá água sem cessar.

Por que te lamentas se nenhum dos dois se detém?
A alma é a fonte,e as coisas criadas, os rios.

Enquanto a fonte jorra, correm os rios.

Tira da cabeça todo o pesar e sorve aos borbotões a água deste rio.

Que a água não seca, ela não tem fim.
Desde que chegaste ao mundo do ser,

uma escada foi posta diante de ti,para que escapasses.

Primeiro, foste mineral;depois, te tornaste planta,e mais tarde, animal.

Como pode ser isto segredo para ti?
Finalmente foste feito homem,com conhecimento, razão e fé.

Contempla teu corpo; um punhado de pó vê quão perfeito se tornou!
Quando tiveres cumprido tua jornada,decerto hás de regressar como anjo;

depois disso, terás terminado de vez com a terra,e tua estação há de ser o céu.
Passa de novo pela vida angelical,entra naquele oceano,e que tua gota se torne o mar,

cem vezes maior que o Mar de Oman.
Abandona este filho que chamas corpo e diz sempre Um; com toda a alma.

Se teu corpo envelhece, que importa?Ainda é fresca tua alma.



Para saber mais: http://www.rumi.net/rumi_by_shiva.htm

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Que Pai é Esse...Tão Belo?

Mais um poeta da família que faz uma homenagem ao nosso querido pai que transcendeu o mundo dos homens e foi brincar com os passarinhos de Deus.
É o primogênito, o filho primeiro,meu irmão querido, que derrama suas lágrimas sobre o papel e mostra as emoções da saudade, das memórias guardadas a sete chaves e do amor a um Pai tão belo e simples como o canarinho da terra que ele amava tanto.
Obrigada irmão por compartilhar conosco seu cantinho da saudade.


MEMÓRIAS DO SAUDOSO BIDA

Por Zirnaldo Rocha


(1ª Parte)

(As lembranças são diferentes: elas partem do último ponto para trás, do presente para o passado... Nossas lembranças do Bida, como seus filhos, partem da sua morte para os começos, da última imagem que vimos dele, das lembranças saudosas até chegar às origens da história – da nossa história de filhos e do pai maravilhoso que tivemos)...





O MEU ADEUS À DISTÂNCIA, A ÚLTIMA PÁGINA:
“QUE PAI É ESSE... TÃO BELO?”


Ah! Bida você não me avisou que estava tão mal de saúde e que iria morrer...
Mas, eu o compreendo e o perdôo
– eu estava tão longe
e a sua voz tão fraquinha, não foi?

Meus olhos não pousaram em você pela última vez,
não pude abraçá-lo como filho mais velho,
não pude ouvir as suas últimas palavras,
Não pude dizer: ‘até logo pai’,
nem orar com o senhor,
nem pedir-lhe a bênção pela última vez
e ouvir você dizer – tão lindo:
“Deus te dê boa sorte, meu filho”!


Ah! Pai, como as lágrimas correram abundantes em meus olhos,
neste adeus à distância,
como o meu coração reclamou!
– Mas, eu estive aí depois,
visitei o seu quarto,
vi a sua foto comigo e alguns outros irmãos,
orei agradecendo a Deus por sua vida,
por sua dedicação a nós,
seus filhos, sempre amados e protegidos...





Ao final da minha oração ali no seu quarto,
a minha emoção foi tão linda...
Foi como se eu ouvisse o seu amém,
contemplasse o seu satisfeito sorriso,
e ouvisse a sua voz carregada de amor
ao abençoar-me, dizendo-me:
“Deus te dê boa sorte meu Filho”!

Ah! pai, como valeu a minha ida aí para vê-lo,
mesmo sem a sua presença física,
estar com você alguns momentinhos,
só nós dois,
e Deus abençoando o nosso encontro,
o nosso último diálogo
como pai e filho primeiro...

Adeus pai, até breve,
a sua lembrança estará sempre conosco,
a sua memória nunca se apagará do nosso coração...

sábado, 10 de maio de 2008

O Bebedor de Shampoo



Ele dobrou a esquina com 94 anos,
Ainda tinha gosto de putaria
Nas partes.
Falava palavras soltas
Que se emendavam no ar.
Eu, atento, as respirava
E as atiçava no papel.
E o papel as chamava e chama
De poesia.
Quando elas reunidas,
Untadas, ainda sem sentido,
Dentro da folha,
Que pode ser verde,
Azul ou branca,
Ou outra cor de mar em frente,
Itapuã.
Untadas, mesmo sem sentido.
Mais belas, mais aves,
Mais mar...
Um dia ele estava
Com os "zoim" percorrendo
A empregada nova.
Sentado em frente,
De pernas cruzadas
E os "zoim" correndo
Onde a empregada nova ia.
Perguntei na bucha:
O que o "Sinhô" está apreciando aí, Pai?
Ele na bucha disse:
Tô apreciando o "restim" da minha vida.
E lá vinha a poesia me "futucá" novamente.
A mesma de antes,
Aquela que quando juntava palavras
Que meu pai soltava no ar.
Aquela, a mesma poesia
Que meu pai me ensinava sem perceber.
Dentro do "restim" da vida.
Mais belas, mais aves, mais pai.
O mesmo que dobrou a esquina com 94 anos.




E aí, Pai? Como o "sinhô" vai?
Ele lá olhando o infinito
Bem em frente ao mar na varanda,
Dizia:
Tô aqui entregue à "mamãe sacode".
Eu ficava atônito
E recorria ao meu irmão
Gelbinho
Irmão sabido de verdade
Sabido das letras
Pedra e terra
Sabido de meu pai.

E aí, Gelbinho!
Por que chama a "véia da foice"
De "mamãe sacode"?

Meu irmão me enrolava
Com a sabedoria dele.
Sabedoria de pedra
Terra e pai.
E minha cunhada
No fundo só ria.




E lá vinha a poesia me "futucá" novamente.
A mesma de antes.
Aquela que quando juntava palavras
Que meu pai soltava no ar.
Aquela, a mesma poesia
Que meu pai me ensinava sem perceber.
Dentro do "restim" de vida.
Mais belas, mais aves, mais pai.
O mesmo que dobrou a esquina com 94 anos.
Menino ainda
Menino muito mais,
Pois o olhar não mentia a idade.




Outra feita:
E aí, pai! como o "sinhô" vai?
E ele lá, olhando o infinito,
Bem dentro da varanda,
Bem frente ao mar,
E os passarinhos voando em volta,
Voando dentro dos olhos,
Voando na sabedoria
De um olhar menino,
Respondia:
Sei como é que tô não.




Naquele momento,
Mamãe sacode tinha dado um tempo.
Ou tinha ido em frente
Beber outra vida,
Molhar os pés no mar.

Um dia
Ele querendo beber uma coisa
Entrou no banheiro
E bebeu shampoo.
O povo correu para acudir
Pois a boca espumava
Espuma azul
E na boca nem cabelo tinha.
Principalmente a dele.
Da cabeça aos pés
Tudo liso.
Tudo calvo.
Só não era calva a sabedoria de menino
Que ele carregava.
Sabedoria pura
Sabedoria de beber shampoo azul
Como o mar em frente
E o céu em cima.
Como o coração azul do poeta
Que eu carrego
E que não é meu
Veio de lá
Do coração vermelho do meu pai.




Tô escrevendo agora.
Do mesmo jeito
Que algumas lágrimas caem dos meus olhos
Molhando a boca
Molhando o papel.
Escrevendo pai
Escrevendo meu coração
No coração lá dele.
Meu pai tinha um coração maior que tudo.
E que me desculpe o mar,
Mas o coração de meu pai
Era bem maior,
E tinha ondas também e banhavam as pessoas
Que chegavam.
Mulher?
Era a que ele mais queria banhar
De amor, carinho, afago, cafuné.
Minha mãe não gostava muito daquele amor estendido.
Mas meu pai não tinha jeito.
Era só chegar uma empregada nova
Que os "zoim" brilhavam,
Pois o amor estava na memória.
Amor a gente nunca esquece.
A poesia não deixa.
O menino que se alojou naquela morada
De 94 anos, também não deixava.
Ele tinha um coração azul,
Bem maior que o mar.
E tinha ondas também que banhavam as pessoas...



Cheguei à noite do trabalho.
E o povo me contou a estória do shampoo.
Fui lá perguntar:
E aí, pai! por que o sinhô bebeu shampoo?
E ele lá, olhando o infinito
Bem dentro da varanda,
Bem em frente ao mar:

Mas, moço, qualquer um bebia
Pois aquele shampoo todo azuzim
Era bunitim demais.




Meu pai era assim.
Meu pai bebia shampoo
Pois o mesmo tinha a cor do mar
Tinha a cor do céu
Tinha a cor do meu coração
Que também é azul.
A poesia é azul.
Tudo é azul
E meu pai muito mais...
Meu pai tinha um coração bem maior que o mar.
Eu sei disso
Ele sempre me diz em sonhos.




Talvez um dia eu volto a falar de meu pai.
Agora não dá.
Uma enxurrada no momento corre pela face,
Molhando a boca,
Molhando o papel,
Molhando o chão,
Mesmo ele estando na memória.
Eu sei que o amor a gente nunca esquece,
Mas não controlo meu choro,
Uma saudade bateu.




Jean Claudio (8 e 9 de maio de 2008)

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