sábado, 31 de maio de 2008

Iberê Camargo

Muitos anos atrás, foliando um livro de pintura dei de cara com algumas obras de Iberê Camargo. Elas me impressionaram prontamente e eu não tinha a mínima idéia de quem ele era, o que era expressionismo, ou mesmo grande conhecimento da arte pictórica em geral. O que mais me chamou atenção foi a textura, as cores e a espontaneidade das emoções vindas à tona.














Anos se passaram, o mundo girou e o meu barco tomou outro rumo, aportando-se nos mares nórdicos.















O frio era grande, a saudade imensa e a solidão tentava me dominar, não com depressão ou tristeza, mas instigando a minha curiosidade a buscar outros mundos, outras artes, outras impressões e expressões.












Descobri a Europa e toda sua carga artística, desde Monet, Picasso, passando por Van Gogh e tantos outros. Visitei grandes museus, me encantei com a sensibilidade, imaginação e criatividade de seus pintores.







Depois desse devaneio artístico cultural sobre outros povos, voltei para minhas origens e pesquisei sobre os pintores brasileiros. Achei pouca coisa, até tentei comprar livros aqui e no Brasil , mas novamente a escassez era acintosa.












E aquela textura e cores não saía da minha memória, só que já não lembrava do dono delas. Pensei, será Di Cavalcanti o nome dele? futucava e descobria que não era o caminho. Cândido Portinari? e nada.










E aí assistindo uma reportagem na tv outro dia, ouvi alguém falando sobre a inauguração da nova sede da Fundação Iberê Camargo, e aí Bum!!!! eu descobri o Brasil, aquele da textura e cores da minha memória lá dos anos idos do final da década de 80. Corri ao computador e dei de cara com toda essa beleza e força criadora que tanto me marcou.







São traços fortes, impregnados de paixão, permeando a obsessão; obsessão e tristeza de uma mente conturbada pelos acontecimentos de sua vida pessoal e pelo contexto em que viveu, como diz na frase " "O drama, trago-o na alma. A minha pintura, sombria, dramática, suja, corresponde à verdade mais profunda que habita no íntimo de uma burguesia que cobre a miséria do dia-a-dia com o colorido das orgias e da alienação do povo. Não faço mortalha colorida."






Visitei todos os cantos e recantos virtuais possíveis, só prá conhecer um pouco mais dessa alma ímpar, sensível e buscadora de si mesmo, tão visível em seus muitos auto-retratos e numa de suas frases "Debruço-me sobre este misterioso poço, insondável, que existe em cada homem."












Ele passou por diversas fases em sua arte, desde a figuração da amada, dele próprio aos contornos simples e marcantes....

























passando pelo abstracionismo












e até mesmo as paisagens da sua querida cidade natal, interior do Rio Grande do Sul onde passou sua infância.











"O pintor é o mágico que imobiliza o tempo."
Ao longo de sua vida, Iberê Camargo produziu mais de sete mil obras, entre desenhos, pinturas, gravuras, guaches. Somente no acervo da Fundação Iberê Camargo, existem mais de quatro mil desses trabalhos, que estão sendo cuidadosamente catalogados em vista da produção do catálogo raisonnè do artista.



Prá saber mais sobre esse grande pintor visite http://www.iberecamargo.org.br/

domingo, 25 de maio de 2008

Re-criar

Eu fico intrigada com a imaginação humana! O Homem tem destruído tudo que está ao seu alcance, mas em contra-partida tem tentado virar o curso dessa ameaça. Isso se aplica a todas as áreas, tanto na destruição, quanto na construção. E crochê também tem feito sua parte. É o re-criar a partir de materiais, que a princípio não tem nada a ver com essa arte.


Vejam que flor mais linda e singela! é feita de lacre de latinha de cerveja ou refrigerante.

Agora, olhe prá esse vestido, é uma verdadeira obra de arte! e todo feito de crochê com lacres.
E essa criatividade não pára aí. "Nada se perde, tudo se transforma", já dizia um desses cientistas loucos, que de louco não tinha nada ( talvez um pouquinho) , mas a sabedoria dessa afirmativa é de deixar qualquer filósofo de queixo caído.
Veja essa toalhinha amarela. O centro é um CD usado, desses tantos que nós inutilizamos quando vamos gravar algo que não dá certo. Em vez de jogar fora, que tal fazermos essa peça e usarmos por muitos anos mais?


E tem mais....
Essas bijouterias foram feitas a partir de embalagem de café, biscoito. Aquelas brilhantes, que nem prestamos tanta atenção assim. É só cortá-las em tirinhas e tcham!!!! virou uma "linha" metálica super charmosa. Além de serem grátis, estamos ajudando o meio-ambiente a desintoxicar.







Vejam que bolsa e cinto mais lindos! novamente é o lacre de latinha fazendo sucesso, quando a criatividade é exercida.






Esse chapéu encantador é feito de embalagem de plástico, essas de supermercado que temos de montão em nossas casas, que sempre vão para o lixo, ajudando a fazer dos rios, mares, encostas um verdadeiro PINICÃO!!!!!





É só usar a imaginação e reverter essa maldição dos nossos tempos, basta cada um fazer sua parte e, como crocheteiras que somos, estamos tentando contribuir com arte, função ,beleza e menos lixo na nossa casa planetária.









Mais uma belezura feita de lacre de latinha!







E mais uma.....




Os exemplos não páram aí. Esses só são uma pequena amostra do que pode ser feito com toda essa porcaria que criamos.
Prá saber como as peças são feitas visite o site http://falandodecrochet.blogspot.com/search/label/CROCHE%20DE%20LACRE

sábado, 17 de maio de 2008

Um livro espetacular!!








Eu já li 4 vezes! já recomendei para meio mundo! já dei para um mundo e meio! e agora estou estudando capítulo por capítulo através do site de Oprah e podcast da Itunes. O nome de tamanha jóia em português é "O despertar de uma nova Consciência" e o autor é Eckhart Tolle.






Eckhart Tolle nasceu na Alemanha, onde passou os primeiros treze anos de sua vida. Depois viveu na Espanha dos 13 aos 19 e em seguida mudou-se para Londres onde graduou e tornou-se supervisor de pesquisa na Universidade de Cambridge. Dos 13 aos 22 anos não teve nenhuma educação formal, recusando ir à escola por causa do "ambiente hostil", mas durante esse período buscou seus "próprios interesses". Quando tinha vinte e nove anos, uma transformação espiritual profunda ocorreu, dissolvendo sua identidade velha e mudando radicalmente o curso de sua vida. Os próximos anos foram devotados a compreender, a integrar e a aprofundar essa transformação, que marcou o começo de uma viagem interior intensa. Eckhart Tolle não é afiliado a nenhuma religião ou tradição particular. Seus ensinamentos possuem uma mensagem simples, contudo profunda, de uma claridade intemporal e descomplicada dos mestres espirituais antigos. Eckhart está viajando atualmente extensivamente, levando seus ensinamentos pelo mundo inteiro.



Numa dessas viagens, Eckhart foi convidado por Oprah prá participar de um curso imprecedente, discutir seu livro "O despertar..." com uma audiência mundial, através da internete .


Mais de um milhão de pessoas registrou prá esse curso ,de todos os lugares do planeta, inclusive do Brasil. Por "acaso", futucando a loja do Itunes prá comprar um livro, sem querer, fui até a secção de Podcast e lá encontrei o de Oprah e Eckhart. Foi paixão a primeira vista! de lá prá cá, não tiro meu Ipod do ouvido e aprendo cada vez mais sobre o complicado e astucioso mundo do Ego e suas implicações. Pena que é em Inglês, e muitos de vocês não dominam a língua, mas aconselho àqueles que sabem esse idioma a ouvir essa beleza.




Prá lhe dar uma idéia do conteúdo do livro, traduzi alguns trechos:











" Não importa o que você tem ou consiga, você nunca está satisfeito. Você sempre estará procurando algo mais que lhe realize, que preencha seu sentimento de vazio interior."






" Não reação ao ego do outro é uma das maneiras mais eficazes ,não somente de ir além do ego em si mesmo, mas igualmente de dissolver o ego humano coletivo. Mas você só pode estar em um estado de não reação se poder reconhecer que o comportamento "irritante" de alguém está vindo do ego, e é uma expressão da disfunção coletiva humana. Quando você perceber que essa irritação nao é pessoal, você não reagirá a esse comportamento e o ciclo da desarmonia pára aí."





" Há o sonho, e há o sonhador do sonho. O sonho é o breve jogo no mundo das formas. É o nosso mundo - relativamente real mas não absolutamente real. Então há o sonhador, a realidade absoluta em que as formas vêm e vão. O sonhador não é a pessoa. A pessoa é parte do sonho. O sonhador é o substrato em que o sonho aparece, que faz o sonho possível. É o absoluto atrás do relativo, o atemporal atrás do tempo, a consciência atrás das formas. O sonhador é a própria consciência - quem você verdadeiramente é."








" As pessoas inconscientes - e muitos permaneçem inconscientes, presos em seus egos ao longo de suas vidas - di-lo-ão rapidamente quem são: seu nome, sua ocupação, sua história pessoal, a forma ou estado de seu corpo, e qualquer outro aspecto que se identifiquem. Outros podem parecer mais evoluídos porque acham que são uma alma imortal ou um espírito vivo. Mas será que sabem realmente, ou apenas adicionaram algum conceito espiritual ao conteúdo de suas mentes? Conhecer a si mesmo vai muito mais além do que a adoção de idéias ou opiniões. As idéias e as opiniões espirituais podem no melhor dos casos ser indicadores úteis, mas raramente conseguem mudar os conceitos mais firmes e estabelecidos do seu âmago que você pensa que você é, que faz parte do condicionamento da mente humana. Conhecer-se profundamente não não tem nada a ver com as idéias que estão flutuando ao redor em sua mente. Conhecer a si mesmo deve ser enraizado no ser e não na mente."



Enfim... leiam o livro e tirem suas próprias conclusões.





























































































sábado, 10 de maio de 2008

O Bebedor de Shampoo



Ele dobrou a esquina com 94 anos,
Ainda tinha gosto de putaria
Nas partes.
Falava palavras soltas
Que se emendavam no ar.
Eu, atento, as respirava
E as atiçava no papel.
E o papel as chamava e chama
De poesia.
Quando elas reunidas,
Untadas, ainda sem sentido,
Dentro da folha,
Que pode ser verde,
Azul ou branca,
Ou outra cor de mar em frente,
Itapuã.
Untadas, mesmo sem sentido.
Mais belas, mais aves,
Mais mar...
Um dia ele estava
Com os "zoim" percorrendo
A empregada nova.
Sentado em frente,
De pernas cruzadas
E os "zoim" correndo
Onde a empregada nova ia.
Perguntei na bucha:
O que o "Sinhô" está apreciando aí, Pai?
Ele na bucha disse:
Tô apreciando o "restim" da minha vida.
E lá vinha a poesia me "futucá" novamente.
A mesma de antes,
Aquela que quando juntava palavras
Que meu pai soltava no ar.
Aquela, a mesma poesia
Que meu pai me ensinava sem perceber.
Dentro do "restim" da vida.
Mais belas, mais aves, mais pai.
O mesmo que dobrou a esquina com 94 anos.




E aí, Pai? Como o "sinhô" vai?
Ele lá olhando o infinito
Bem em frente ao mar na varanda,
Dizia:
Tô aqui entregue à "mamãe sacode".
Eu ficava atônito
E recorria ao meu irmão
Gelbinho
Irmão sabido de verdade
Sabido das letras
Pedra e terra
Sabido de meu pai.

E aí, Gelbinho!
Por que chama a "véia da foice"
De "mamãe sacode"?

Meu irmão me enrolava
Com a sabedoria dele.
Sabedoria de pedra
Terra e pai.
E minha cunhada
No fundo só ria.




E lá vinha a poesia me "futucá" novamente.
A mesma de antes.
Aquela que quando juntava palavras
Que meu pai soltava no ar.
Aquela, a mesma poesia
Que meu pai me ensinava sem perceber.
Dentro do "restim" de vida.
Mais belas, mais aves, mais pai.
O mesmo que dobrou a esquina com 94 anos.
Menino ainda
Menino muito mais,
Pois o olhar não mentia a idade.




Outra feita:
E aí, pai! como o "sinhô" vai?
E ele lá, olhando o infinito,
Bem dentro da varanda,
Bem frente ao mar,
E os passarinhos voando em volta,
Voando dentro dos olhos,
Voando na sabedoria
De um olhar menino,
Respondia:
Sei como é que tô não.




Naquele momento,
Mamãe sacode tinha dado um tempo.
Ou tinha ido em frente
Beber outra vida,
Molhar os pés no mar.

Um dia
Ele querendo beber uma coisa
Entrou no banheiro
E bebeu shampoo.
O povo correu para acudir
Pois a boca espumava
Espuma azul
E na boca nem cabelo tinha.
Principalmente a dele.
Da cabeça aos pés
Tudo liso.
Tudo calvo.
Só não era calva a sabedoria de menino
Que ele carregava.
Sabedoria pura
Sabedoria de beber shampoo azul
Como o mar em frente
E o céu em cima.
Como o coração azul do poeta
Que eu carrego
E que não é meu
Veio de lá
Do coração vermelho do meu pai.




Tô escrevendo agora.
Do mesmo jeito
Que algumas lágrimas caem dos meus olhos
Molhando a boca
Molhando o papel.
Escrevendo pai
Escrevendo meu coração
No coração lá dele.
Meu pai tinha um coração maior que tudo.
E que me desculpe o mar,
Mas o coração de meu pai
Era bem maior,
E tinha ondas também e banhavam as pessoas
Que chegavam.
Mulher?
Era a que ele mais queria banhar
De amor, carinho, afago, cafuné.
Minha mãe não gostava muito daquele amor estendido.
Mas meu pai não tinha jeito.
Era só chegar uma empregada nova
Que os "zoim" brilhavam,
Pois o amor estava na memória.
Amor a gente nunca esquece.
A poesia não deixa.
O menino que se alojou naquela morada
De 94 anos, também não deixava.
Ele tinha um coração azul,
Bem maior que o mar.
E tinha ondas também que banhavam as pessoas...



Cheguei à noite do trabalho.
E o povo me contou a estória do shampoo.
Fui lá perguntar:
E aí, pai! por que o sinhô bebeu shampoo?
E ele lá, olhando o infinito
Bem dentro da varanda,
Bem em frente ao mar:

Mas, moço, qualquer um bebia
Pois aquele shampoo todo azuzim
Era bunitim demais.




Meu pai era assim.
Meu pai bebia shampoo
Pois o mesmo tinha a cor do mar
Tinha a cor do céu
Tinha a cor do meu coração
Que também é azul.
A poesia é azul.
Tudo é azul
E meu pai muito mais...
Meu pai tinha um coração bem maior que o mar.
Eu sei disso
Ele sempre me diz em sonhos.




Talvez um dia eu volto a falar de meu pai.
Agora não dá.
Uma enxurrada no momento corre pela face,
Molhando a boca,
Molhando o papel,
Molhando o chão,
Mesmo ele estando na memória.
Eu sei que o amor a gente nunca esquece,
Mas não controlo meu choro,
Uma saudade bateu.




Jean Claudio (8 e 9 de maio de 2008)

quinta-feira, 8 de maio de 2008

O Céu e a Nuvem



Existem dois fenômenos, o céu e a nuvem. A nuvem vem e vai. O Céu nunca vem e nunca vai. Algumas vezes a nuvem estará lá e algumas vezes não estará lá;
é um fenômeno temporal, é momentâneo.



O céu está sempre lá: é um fenômeno atemporal, é eterno. As nuvens não podem corromper o céu, nem mesmo nuvens negras podem corrompê-lo. Não existe nenhuma possibilidade de corrompê-lo. A pureza do céu é absoluta, a pureza dele é intocável. A pureza do céu é sempre virgem, você não pode violá-lo.



As nuvens podem ir e vir e elas têm ido e vindo, mas o céu permanece tão puro como sempre foi. Nem mesmo um traço dele é deixado para trás.



Então existem duas coisas na existência: aquelas que são como o céu e as que são como as nuvens. Os seus atos são como as nuvens, eles vem e vão. Vocês? Vocês são como o céu: Vocês nunca vêm e nunca irão. O seu nascimento, a sua morte, são como as nuvens, acontecem. Vocês? Vocês nunca acontecem: Vocês sempre estarão aí. Coisas acontecem a você, você nunca acontece.



Coisas acontecem a você do mesmo modo como as nuvens acontecem no céu. Você é um observador silencioso de todo o jogo das nuvens. Algumas vezes elas são brancas e belas e outras vezes elas são escuras e sombrias e muito feias.



Algumas vezes elas estão cheias de chuva e outras vezes simplesmente vazias. Algumas vezes elas causam um grande benefício à terra e outras vezes um grande prejuízo.



Algumas vezes elas trazem enchentes e destruição e outras vezes elas trazem vida, mais verde, maior colheita.



Porém o céu permanece o mesmo todo o tempo: boas ou ruins, divinas ou demoníacas, as nuvens não o corrompem.



As ações são nuvens, os feitos são nuvens.
O Ser é como o céu.


Texto: A visão Tântrica ( Osho)

sábado, 12 de abril de 2008

Autismo

Minha Vida Com Karl (Sethany Griffin)
Tradução: Queila Levinstone

Versão em Inglês: http://www.nationalautismassociation.org/article7.php


Primeiramente, eu gostaria de começar assim: Minha criança é perfeita. Realmente ambas as minhas crianças são perfeitas; Eu sou uma mulher muito afortunada. Eu não mudaria qualquer coisa na minha vida, porque apesar de ser tão dura, e tão dura quanto promete ser, este é o trajeto que Deus traçou para mim. Eu estou escrevendo este artigo é para dar algumas idéias, algum apoio, e algum conforto àqueles que estão vivendo com uma criança com necessidades especiais. Você não está sozinho, mesmo que frequentemente se sinta como estivesse.





Quando meu primeiro filho, DJ nasceu, eu tomava conta de um abrigo para mulheres mentalmente doentes. Em meu sétimo mês de gravidez, uma das mulheres que eu cuidava me atacou. Eu saí em licença-maternidade no dia seguinte. Após minha licença, eu fui trabalhar para uma companhia diferente que controlava dois abrigos para adultos mentalmente retardados e mentalmente doentes. Depois de aproximadamente sete meses, eu descobri que estava grávida de novo e fiquei super feliz. Desta vez, nós torcíamos para que fosse uma menina para equilibrar nossa pequena família perfeita. Logo, fizemos uma ultrassom e foi dito que nós teríamos um outro menino. Por aproximadamente dez minutos eu fiquei arrasada e chorei abertamente no consultório. Eu responsabilizei os hormônios e depois aceitei o filho número dois.







Eu passei toda minha gravidez ensinando, supervisionando e lutando com dez pessoas mentalmente retardadas . Saí em licença -maternidade adiantada porque eu não podia mais conter um indivíduo com segurança se fosse necessário. Meu marido foi muito claro quando disse que se eu escolhesse voltar para esse tipo de trabalho depois que nossa criança nascesse, que ele divorciaria e tomaria as crianças. Embora eu soubesse que ele nunca faria isso, eu também sabia que esse trabalho estava estressando tremendamente nossa família. Como você vê , eu podia ser chamada 24 horas por dia, sete dias por semana, e frequentemente tinha que conter indivíduos. Eu podia vir para casa com arranhões, manchas e olhos roxos toda a hora. Minha mãe ficava horrorizada, meu marido ficava receoso que todos pudessem pensar que eu era uma esposa que apanhava do marido, e eu estava esgotada fisica e mentalmente.

Eu tive uma longa licença - maternidade , cuidando do meu bebê novo e pensando o que eu faria quando minha licença acabasse. Depois de muita discussão com meu marido, chegamos a conclusão que eu não poderia voltar ao meu último trabalho. Não seria justo para os nossos filhos se eu tivesse que deixá-los de repente. Eu necessitava de "um trabalho real" com horas "normais" e um bom salário. Eu fui trabalhar para uma das maiores companhias de seguro de saúde do estado no departamento de saúde mental. Inicialmente, este emprego atingiu completamente minhas expectativas. Eu trabalhava de 9 da manhã até 5 da tarde e não fazia outra coisa senão atender telefonemas e marcar consultas. Ocasionalmente eu recebia "uma chamada de crise" de um membro suicida em potencial. (Porque alguém ligaria para uma companhia de seguro quando estava pensando em se matar, isso eu nunca pude compreender ) Era o meu trabalho manter a pessoa calma, falar com ela e tentar obter informações até que os clínicos "reais" pudessem falar e persuadir para que a pessoa se internasse num hospital. Eu vivia para essas ligações; era o único momento onde eu sentia que realmente poderia ajudar a alguém. Era algo que me fazia falta do meu trabalho anterior.


Durante todo esse tempo, meus meninos cresciam rápido. Ambos passaram por todos os marcos da infância, tiveram muitas infecções de ouvido e dos brônquios. Karl teve mais do que deveria. Foi um bebê doentinho até dois anos e nós estávamos no pronto-socorro quase que mensalmente. DJ era uma criança de quatro anos feliz , interessado em coisas de criança de quatro anos. Ele era muito conversador, sempre tagarelava com seu irmãozinho e tudo parecia bem. Quando Karl tinha quase três anos, ele parou de falar de vez e começou a gritar e apontar para as coisas que queria . Ele se jogava no chão e apontava para o que queria. Ele passava todo o seu tempo na cozinha girando sobre si mesmo. Parecia perdido; Eu pegava ele sorrindo e olhando fixamente para coisas que não eram visíveis a mim . Ele odiava sons barulhentos, cobria as orelhas e gritava. Não queria tomar banho, agia como se a água fosse ferir sua pele. Eu sabia que alguma coisa estava errada com ele . Eu tinha passado a maioria de minha vida adulta tomando conta de pessoas com necessidades especiais e conhecia todos os sinais.


Depois de ter ignorado o comportamento esquisito de Karl por muito tempo, eu resolvi levá-lo ao Pediatra. Em cinco minutos o doutor me disse, "Sra. Griffin, pelo o que está me descrevendo e pelo que eu estou vendo com meus próprios olhos (Karl estava debaixo da mesa de exame balançando) acho que já sabe o que está acontecendo aqui, seu filho é autista."





Enfim, alguém tinha dito a palavra PROIBIDA. Alguém que sabia o que estava dizendo tinha me dito a palavra PROIBIDA. Meu primeiro pensamento foi, "Não, me desculpe, eu já fiz a minha parte. Eu dediquei anos de minha vida à população com necessidades especiais. MEU FILHO não pode ser autista." Voltando àquele momento, eu acredito que o que eu disse realmente ao doutor de uma maneira áspera foi, "eu vim aqui para que você dissesse que eu estava errada. Isto não me ajudou em nada." Felizmente o pediatra era um médico experiente com essas situações e não levou para o lado pessoal o meu desabafo. Deu-me alguns nomes de pediatras neurologistas e disse-me para marcar uma consulta assim que eu pudesse.


Eu fui para casa e liguei para o primeiro número que o doutor tinha me dado e uma recepcionista friamente me disse que a próxima consulta disponível seria em 3 meses. Eu expliquei nervosamente para ela que era uma emergência. Pouco eu sabia que ,embora me parecesse certamente uma emergência, não era assim considerado pelos neurologistas. Eu relutantemente marquei a consulta para 3 meses . Apesar de tudo, eu deveria ser grata que um doutor do famoso Hospital Infantil de Boston estivesse disposto a ver meu filho. Nesse ínterim, eu liguei para tudo quanto foi pediatra neurologista que houvesse em um raio de cinqüênta-milhas da área que meu plano de saúde cobria, para ver se eu conseguiria uma consulta mais cedo para Karl. Finalmente encontrei um médico, em outro hospital de Boston, que poderia vê-lo em duas semanas.




Eu levei minha mãe comigo para este exame, porque eu achei que depois de todo sofrimento e dor de cabeça que causei , ela gostaria de estar lá quando eu recebesse minha primeira dose real de dor referente aos problemas dos meu filho. Quando chamaram o nome de Karl, ele imediatamente se atirou no chão e recusou a andar. Eu peguei-o e segui a enfermeira até a área onde pesam e medem as crianças. Quando a enfermeira tentou colocar a fita métrica no alto da cabeça de Karl , ele começou a gritar e espernear (eu sei agora que ele é extremamente sensível a qualquer um que toca em sua cabeça ou orelhas). Nós seguimos a enfermeira até um consultório minúsculo e esperei pelo médico examinar e constatar que meu filho NÃO ERA COM CERTEZA autista. Infelizmente, isto não aconteceu.


Quando o doutor chegou, Karl já estava confortávelmente instalado no espaço entre a parede e a mesa de exame. Tão confortável , que nos primeiros vinte minutos não deu um pio, exceto para gritar quando alguém tentava tocá-lo. O doutor fez umas cem perguntas sobre seu comportamento, histórico da família e se ele tinha quaisquer traços obssessivos compulsivos. Indagou sobre o seu contato de olho no olho (que era ok na maioria das vezes) e se era afetuoso (era comigo, mas muito reservado com outras pessoas). Após mil perguntas, e diversas tentativas de interagir com meu filho, o doutor concordou com nosso pediatra, Karl era mesmo autista. O médico continuou dizendo que Karl provavelmente teria problemas enormes de comportamento quando ficasse mais velho e precisaria de medicação quase que imediatamente. Disse que eles estavam tendo muita sorte com Risperadol. Minha experiência com Risperidol era de que se tratava de um remédio anti-psicótico. Tudo que eu pude pensar foi, "você quer pôr meu filho de três anos sob um anti-psicótico, seu louco?"



Nós nunca mais voltamos naquele médico. Era um percurso pequeno do hospital até a garagem onde nós tínhamos estacionado o carro da minha mãe. Estava frio, e nós andamos em silêncio. Eu pus Karl em seu assento, olhei para fora da janela e caí em prantos. Por que? Por que eu? Por que meu filho? Não era justo. Eu já tinha mostrado a Deus quanto solidária eu fui ao cuidar de crianças autistas de outras pessoas. Eu tinha já o meu lugar garantido no céu, porque eu era uma pessoa boa. Porque então Deus pôs minha criança que foi perfeita antes, neste caminho para a destruição? Eu sabia que eu estava sendo egoísta , e que Karl precisava que eu fosse egoísta naquele momento. Ainda bem que a minha mãe dirigiu o carro até em casa, porque se fosse eu, nós certamente teríamos um acidente. Minha cabeça estava a mil. Será que ele teria amigos? Será que casaria algum dia? Eu seria capaz de cuidar dele do jeito que necessitava? De repente o pensamento de perdê-lo veio até a minha mente e daquele momento em diante, eu me tornei na maior defensora incansável daquele menininho.


Dois meses e meio mais tarde nós fomos ver o outro médico, aquele do Hospital Infantil de Boston. Fêz as mesmas perguntas, e tentou examinar Karl da melhor maneira possível. (Karl mais uma vez tinha encontrado seu lugarzinho embaixo da mesa de exame). Nessa época, Karl tinha desenvolvido outros comportamentos esquisitos. Se comesse com as mãos, comeria somente se tivesse uma porção igual para cada mão. Por exemplo, se comesse uma banana, precisaria de uma segunda banana para a outra mão. Isto não incluia partir a fruta ao meio, porque aparentemente parecia que a danificava e então a jogava no lixo. Não comia qualquer coisa misturada. Adorava iogurte, adorava morangos, mas misturados ,causava uma sensação de asco e cuspia fora com toda força. O médico verificou que Karl tinha um distúrbio do espectro de Autismo. Chamou o PDD NOS, ou o distúrbio intenso do desenvolvimento. Era muito mais positivo sobre o futuro de Karl. Disse que nós precisávamos começar uma intervenção urgente para tentar resgatar a linguagem antes que desaparecesse completamente. Disse que em alguns anos, o diagnóstico de Karl poderia mudar, mas por enquanto estava com a fala bastante atrasada , mas que poderia ser um menino "normal" algum dia. Ao menos era aquilo que eu tinha dito prá mim mesmo.


Eu passei as semanas seguintes marcando consultas e organizando avaliações, e tentando não pensar na vida das pessoas que eu tinha cuidado. Já que eu tinha sido responsável pelas populações de crianças mais velhas, muitos de meus clientes tinham estado em escolas públicas por uma boa parte de suas vidas. Naqueles tempos, era o que se fazia quando seus filhos tinham necessidades especiais. Você os mantinha afastados. Eu lembrei de um dos meus clientes, que tinha a Síndrome de Down e foi deixado na porta de uma escola do Estado quando tinha uma semana de idade. Viveu lá a maioria de sua vida até os anos 70, quando houve reformas sobre os cuidados que se tinha de ter com as pessoas especiais. Eu lembro de ter ouvido histórias horríveis sobre grupos de chuveiros, abuso sexual e físico. Embora as vidas deles fossem significativamente melhores agora do que aquelas vividas em abrigos, eles carregavam para sempre as cicatrizes físicas e psicológicas de suas vidas precedentes. Eu comecei a pensar sobre o que aconteceria se Karl se tornasse demasiadamente difícil para que eu cuidasse. O que eu faria? Eu nunca poderia conviver com a culpa de colocá-lo em um abrigo, por melhor que esse lugar fosse, ninguém poderiam cuidar de meu filho melhor do que eu . Desperdicei muita energia com estes pensamentos nos meses que se seguiram. Cheguei a conclusão de que eu precisava passar mais tempo com meu filho, com ambos os filhos. Agora que Karl tinha sido diagnosticado , meu marido e eu fazia tudo para atender as necessidades dele. Eu faltei muito no trabalho, levando ele para exames e avaliações. Meu trabalho não foi conivente com esse meu drama e chegou a um ponto que eu tive que procurar um outro emprego, um que me permitisse passar mais tempo com meus meninos, que compreendesse o que estava se passando comigo e Karl sem sentir pena dele.





Eu pensei profundamente no que fazer em seguida. Nós não podíamos viver somente com o salário do meu marido. Ele era diretor de uma escola primária. Era um bom trabalho, e estava lá por muitos anos, mas não pagava o suficiente para nós sobrevivermos. Nas minhas viajens com Karl, eu encontrei uma companhia com recursos excelentes para crianças com autismo. Eles tinham uma escola na cidade vizinha, como também vários abrigos para crianças. Enquanto eu estava visitando o site deles na internete, notei um campo chamado "oportunidades de carreira". Eu decidi finalmente rever a possibilidade de voltar para a área de atuação do meu trabalho anterior. Queria uma carreira outra vez; Eu estava cansada de apenas ter um emprego. Me inscrevi para a posição de gerente do abrigo de meninas autistas, e três semanas mais tarde estava empregada. Eu estava excitada , não só para voltar a fazer aquilo que eu amava, mas para aprender mais sobre o que meu filho viveria pelo resto da vida e o que eu necessitava fazer para lhe ajudar.


Quando os meninos ficaram mais velhos, tornou-se óbvio a DJ que seu irmão era diferente da maioria das crianças que conhecia. Não compreendia porque Karl gostava de jogar sozinho quando havia um grupo de meninos ao seu redor. Não compreendia porque Karl assistia aos mesmos videos repetidamente sem ficar entediado. Na maioria das vezes, não entendia porque Karl o batia toda hora. Basicamente, DJ achava Karl estranho. Os meninos jogavam juntos frequentemente, mas os mesmos jogos repetitivos que Karl amava tanto, entediava DJ . Os muitos jogos de luta que brincavam juntos, terminava geralmente em meu filho mais velho chorando, e o mais novo olhando prá ele sem nenhuma expressão. Quando DJ tinha qualquer coisa em suas mãos, fosse alimento ou um brinquedo, Karl tomava e batia nele com este objeto. Em minha ótica de mãe inexperiente, minha resposta inicial foi " bata nele de volta e eventualmente ele aprenderá" (minha mãe não acreditava no que ouvia). O que nós aprendemos com esta lição era que Karl tinha uma elevada tolerância a dor. Se DJ o batesse de volta, ele atacaria como um bicho até que DJ se contorcesse no chão e chorasse. Eu comecei a preocupar pela segurança de meu filho mais velho, então voltei ao neurologista.


Logo, eu me acostumei ao meu novo trabalho , amava estar com os estudantes e aprender com eles e suas famílias. Até aquele ponto, eu secretamente pensava que jamais daria remédio para meu filho. Remédio era para pais que não tinham experiência como eu tinha. Eu acreditava firmemente que com o ensino, treinamentos apropriados e estrutura, meu filho logo seria o número um de sua classe pré-escolar. As coisas não aconteceram exatamente dessa maneira, e quando nós voltamos ao neurologista logo depois, eu pensei que, se ele sugerisse uma dose de uísque e de um Ativan três vezes ao dia , eu obedeceria cegamente. Karl não dormia mais a noite toda, e sua agressão crescia enormemente mais e mais a cada dia.




Nós tentamos um monte de remédios. Optamos por um para melhorar o sono, e outro para ajudar a controlar os impulsos. O de dormir nós dávamos duas vezes, uma vez às 8 da noite e outra vez entre 2 e 3 da madrugada. Perdia o efeito após seis horas. Nós aprendemos isto após ele nos acordar muitas noites pedindo para passar videos às 2 da manhã. Sim, nós deixávamos a tevê ligada toda a noite. Embora alguns possam pensar que esta atitude era terrível, essas pessoas não têm crianças autistas que podem viver com pouco sono. Se nós não tivéssemos a televisão ligada às 2 da manhã, Karl tentaria lutar com o irmão (enquanto ele estava dormindo) e cutucaria meu marido e eu , até que nós levantéssemos e fizéssemos um sanduíche de pasta de amendoim com suco, e depois fôssemos alimentar os patos com ele. Traduzindo, se nós não deixássemos a televisão ligada, nós quatro ficaríamos acordados a noite toda. Embora Karl possa funcionar bem com poucas horas de sono por noite, eu não. Por favor, não me julguem até que vocês possam andar alguns quilômetros com meus sapatos, metaforicamente falando.


A instrução de Karl tem sido uma luta constante. Nós intervimos no início. Eles concordaram fortemente que Karl necessitava de ajuda. Infelizmente para nós, Karl estava muito perto do seu terceiro aniversário, o que o colocou diretamente no meio da educação pública. Karl começou o pré-escolar em uma sala de aula inteiramente integrada. Tornou-se claramente doloroso que este não era o lugar para ele, pois se isolou completamente e começou a atacar fisicamente as outras crianças. Chegou-se a conclusão que nós deveríamos transferí-lo para uma classe separada. Isto envolveu um transporte de 20 minutos de ônibus a uma classe especial com somente seis crianças. Porque tinha um professor e dois ajudantes o tempo todo, Karl recebia uma quantidade tremenda de atenção. Começou lentamente a sair de seu escudo protetor e tentou ter contato com as outras crianças. Ele voltava para casa todo dia falando dos seus coleguinhas e das aventuras que eles tinham juntos.


Depois de menos de um ano nesta escola especial, eu adoecí e faltei ao trabalho por meses. Nós tivemos dificuldades financeiras e fomos forçados a vender nossa casa. Isto significou que tínhamos de transferir Karl para uma escola de uma outra cidade. Ele ficou excitado no início; ao menos parecia estar. A escola nova sentiu que era uma boa idéia colocar Karl em uma classe integrada outra vez. Após um ano inteiro cheio de brigas e batalhas constantes com professores e diretores, Karl foi transferido de volta a uma classe especial.


Karl está melhor. Fica na escola o dia inteiro ,cinco dias por semana. Eu me comunico diariamente com o professor, que me diz que tipo de dia ele teve. Eu não me lembro da última vez que teve um dia inteiro que não houvesse absolutamente nenhuma agressão. Ele se especializou em bater, chutar, morder seus professores e as outras crianças. Eu passo cada dia pesquisando e procurando maneiras de ajudá-lo. É super cansativo, mas eu nunca vou parar. Eu o amo, e alguém precisa tomar conta dele, e ninguém pode fazer isso melhor do que eu.






Veja o vídeo que me inspirou a fazer essa postagem mandado por minha filha Mailua: http://www.youtube.com/watch?v=JnylM1hI2jc

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